Aproveitando o cenário privilegiado por sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por um lado, disse que os juros no país não podem baixar por mágica e, por outro, convidou empresários estrangeiros a conhecer as oportunidades de investimento propiciadas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O programa foi lançado nesta semana pelo governo como aposta para fazer a economia destravar.
Em discurso na manhã desta sexta, Lula afirmou que gostaria de ter juros mais baixos no país, mas que não há uma solução mágica para isso. "Todos nós gostaríamos de uma taxa mais baixa no Brasil, mas você não pode reduzi-la por mágica", afirmou.
O Banco Central cortou a taxa básica de juro (a Selic) em 0,25 ponto percentual na quarta-feira, para 13% ao ano, mas o custo dos empréstimos no país ainda está entre os mais altos no mundo.
Durante seu discurso, Lula disse estar confiante de que a taxa de juro no país caia na medida em que aumentar a confiança na economia brasileira.
Já para os mais de mil empresários presentes a Davos, o mandatário brasileiro falou do PAC, convidando-os a visitarem o Brasil a partir de fevereiro para que conheçam de perto as oportunidades de investimento oferecidas pelas novas medidas.
"Não vou aqui fazer merchandising para o Brasil. E não vou pedir para vocês: 'Vem para o Brasil, investe no Brasil'. Isso só vai fazer quem quiser ganhar dinheiro e ter segurança no investimentos", disse.
Ele aproveitou a oportunidade e comentou sobre a política econômica, dizendo o país aprendeu a combinar políticas de crescimento de exportações com crescimento do mercado interno, controle da inflação com crescimento econômico, superávit comercial com superávit na conta corrente, e disse ainda que o Brasil alcançou um nível de reservas que nunca imaginou.
"O Brasil vive um momento de auto-estima interna e de confiança externa, porque a nossa economia nunca esteve numa situação privilegiada como está hoje", afirmou, apresentando o país como um lugar estável para investimentos.
Depois desse encontro, Lula teve reunião com cerca de 80 empresários, na qual ele e os ministros Celso Amorim, de Relações Exteriores, e Guido Mantega, da Fazenda, fizeram um balanço sobre a política econômica. Mantega falou sobre o PAC e Amorim renovou o apelo para retomada das negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC) com a Rodada Doha.
Pedido de abertura
No seu discurso pela manhã em Davos, Lula pediu que a Europa e os Estados Unidos façam concessões para tornar possível um acordo comercial na Rodada Doha que gere desenvolvimento na luta contra a pobreza. O presidente citou o Brasil como exemplo.
A Rodada Doha pode reduzir ou eliminar barreiras comerciais e permitir que países pobres vendam seus produtos às nações ricas sem muitas taxas.
"Se quisermos enviar um sinal aos países mais pobres de que vão ter uma oportunidade no século 21, os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Alemanha, os países mais importantes devem assumir a responsabilidade de tornar possível esse acordo", afirmou.
Lula assegurou que a Rodada Doha "pode ser o caminho da esperança para milhões de seres humanos que esperam um gesto nosso", porque "só se pode acabar com a pobreza se os países pobres se desenvolverem".
"A União Européia (UE) e os países ricos devem entender isso; se não, não existirá acordo", advertiu.
O presidente fez as declarações um dia antes da reunião ministerial de quase 30 países da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Davos, na qual tentarão retomar as negociações da Rodada Doha para a liberalização comercial internacional, que foram suspensas em julho.
Dessa forma, Lula cumpriu sua meta de aproveitar sua viagem à estação de esqui suíça para convocar a elite econômica e política, reunida durante quatro dias, a investir nos países pobres para fomentar o crescimento e poder cumprir os Objetivos do Milênio da ONU de reduzir a pobreza à metade em 2015.
Lula garantiu também aos países desenvolvidos que, se aceitarem concessões, o Brasil convencerá o Grupo dos Vinte (G20) a cumprir sua parte de maneira proporcional a suas capacidades. "O Brasil fará sua parte, fará concessões dentro de suas possibilidades e convencerá o G-20 a fazer o mesmo", disse.
O G20 é integrado por países em desenvolvimento que reivindicam que os Estados industrializados abram seus mercados agrícolas e eliminem seus subsídios neste setor, de modo que possam competir nos mercados internacionais em condições de maior igualdade.
A liderança dessa coalizão, da qual participam China e vários países latino-americanos, foi assumida pela Índia e pelo Brasil.
Lula ressaltou que os países de economias emergentes estão dispostos a contribuir para o esforço de liberalização do comércio mundial, mas de acordo com suas capacidades, porque "nem tudo pode ser igual".
Chamada aos líderes empresariais
O presidente brasileiro aproveitou e pediu aos líderes empresariais presentes em Davos que falem com seus governos e peçam que sejam sensíveis frente à necessidade de se chegar a um entendimento para levar adiante as negociações que estão suspensas há seis meses devido à incapacidade de as grandes potências comerciais, incluindo o Brasil, chegarem a um acordo.
Lula resumiu as chaves para chegar a um acordo: "Os Estados Unidos têm que reduzir um pouco os subsídios agrícolas, a UE deve facilitar o acesso dos produtos agrícolas dos países mais pobres e nós temos que facilitar a entrada dos serviços. Tudo isto de maneira proporcional".
Biocombustíveis
O brasileiro pediu, ainda, investimentos estrangeiros para financiar a produção de biodiesel na América Central e na África e assim incentivar o desenvolvimento e as energias limpas.
Lula propôs que o programa de incentivo ao biodiesel no Brasil "possa ser um exemplo para que os países ricos o financiem nos países africanos e da América Central".
"O biodiesel gera empregos, rendas e desenvolvimento", argumentou.
"Um país tão grande como os Estados Unidos (...) pode participar com os países pobres financiando projetos para que, através dos cultivos agrícolas, com os quais se fabrica o biocombustível, se possa produzir combustível para o mundo limpo, não contaminado e gerador de empregos".
Experiência
Lula, que comparece ao Fórum Econômico Mundial pela terceira vez e está acompanhado de três ministros, disse que viajar a Davos este ano foi para ele "quase uma necessidade", já que foi no fórum que fez sua apresentação internacional e a do programa Fome Zero ao começar seu primeiro mandato.
O fundador do Fórum Econômico de Davos, Karl Schwab, elogiou o feito do governo brasileiro e considerou o país "um modelo" por suas políticas econômicas e um exemplo de "integração na economia mundial com rosto humano".
Lula comentou os feitos de seu primeiro mandato, que segundo ele "provam que democracia e seriedade são dois instrumentos para melhorar as condições de vida", e ressaltou a necessidade de projetos de integração na América do Sul, sobretudo no campo das infra-estruturas.
Para o futuro, falou sobre o recentemente anunciado programa de Aceleração Econômica para fomentar o crescimento com investimentos públicos e privados em infra-estruturas de US$ 234,4 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 500 bilhões) até 2010.
Além disso, assegurou que "as taxas de juros vão continuar baixando à medida que conquistarmos mais confiança" no mercado e criticou que "se fale com tanta facilidade" de uma reforma fiscal, quando a "responsabilidade fiscal" permitiu o saneamento da economia.
Fonte: UOL
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